História e Origem
Hoje finalizei uma varinha que me deixou inquieto do início ao fim. Há algo nela que não repousa… algo que observa. Dei-lhe o nome de Karugûatã, e mesmo agora, enquanto escrevo, sinto como se ela estivesse mais interessada em mim do que o contrário.
Fui até a Bahia para reunir seus materiais, guiado por histórias antigas que falavam de uma árvore que já existia muito antes de qualquer mapa ou nome. Lá encontrei a imponente anciã: uma árvore de Pau-Brasil com mais de seiscentos anos, erguida como um marco silencioso do tempo. Não cortei sua madeira — recebi um galho. E isso fez toda a diferença. Há uma dignidade nesse tipo de matéria-prima que não pode ser forçada.
Mas foi o núcleo que transformou essa varinha em algo… perigoso.
Utilizei um dente do Papa-Figo, criatura grotesca e sorrateira, que se esconde entre histórias contadas às crianças, mas cuja presença é muito mais real do que muitos gostariam de admitir. Ele não caça com força — caça com palavras. Atrai, convence… e então consome. Sua imortalidade vem daquilo que rouba: a energia vital de suas vítimas.
Ao inserir o dente no corpo da varinha, senti imediatamente a mudança. A madeira, antes serena, ficou… alerta. Como se tivesse entendido que agora precisava disputar espaço com algo que não pertence ao mundo natural.
A Karugûatã é uma varinha de 26 centímetros, extremamente flexível, mas não no sentido comum. Ela não se adapta ao bruxo — ela se adapta à sobrevivência. Não importa quem a empunha, desde que esse alguém seja capaz de mantê-la ativa, alimentada, relevante.
Seu poder é sedutor. Ela prolonga a vida, fortalece o corpo, retarda o desgaste do tempo. Mas cobra seu preço de forma sutil: a mente começa a se fragmentar. Pensamentos escorrem, vontades se confundem… e, aos poucos, o bruxo passa a enxergar o mundo como o próprio Papa-Figo enxerga — como algo a ser consumido.
Em minhas mãos, ela respondeu com facilidade a magias de manipulação e influência, quase como se antecipasse intenções antes mesmo que eu as formulasse por completo.
A verdade é que a Karugûatã não pertence a ninguém. Ela acompanha, observa, se adapta — mas no fim, seu único interesse é continuar existindo. E se, para isso, precisar trocar de mestre… ela o fará sem hesitar.
Pergaminho

Informações Técnicas
Informações da Primeira Edição
Esta varinha já teve sua Primeira Tiragem, cada uma numerada e destinada a bruxos e bruxas que ouviram esse chamado.
Carregar uma peça dessa tiragem é mais do que possuir um artefato mágico: é guardar consigo um fragmento do início de uma nova era.
