História e Origem
Hoje concluí uma varinha que parece ter nascido de um paradoxo. Dei-lhe o nome de Teko’y, e desde o instante em que comecei a esculpi-la, tive a impressão de que duas vontades opostas disputavam espaço dentro da mesma peça.
Os ingredientes vieram de Roraima, terra onde antigas histórias ainda caminham entre montanhas e savanas. O núcleo desta varinha é uma pena do cocar de Makunaíma, um ser lendário nascido durante um eclipse, fruto do impossível amor entre o Sol e a Lua. Talvez seja por sua própria origem que Makunaíma jamais tenha aceitado limites. Para ele, regras nunca existiram para serem obedecidas, mas para serem questionadas. Astuto, brincalhão e imprevisível, entregou-me uma única pena de seu cocar, dizendo apenas que “toda boa magia precisa de um pouco de desobediência”.
Para equilibrar um núcleo tão inquieto, escolhi a madeira do caraipé. Não é uma árvore que impressiona pela aparência, mas pela força silenciosa que guarda. Mesmo reduzidas a cinzas, suas fibras continuam úteis: os povos originários as misturam ao barro para fortalecer cerâmicas capazes de resistir ao fogo e ao tempo. Poucas madeiras carregam tamanha resiliência.
Foi justamente aí que nasceu o conflito.
No momento em que a pena encontrou o caraipé, a varinha começou a estalar diante dos meus olhos. Pequenas trincas surgiram por toda a sua extensão, como se o espírito indomável do núcleo tentasse romper a disciplina da madeira, enquanto o caraipé resistia com toda a força que possuía. Por um instante pensei que perderia o trabalho de semanas. Mas as rachaduras cessaram.
Elas não eram sinais de fragilidade… Eram o retrato perfeito da natureza daquela varinha.
Com 39 centímetros de comprimento, a Teko’y tornou-se uma companheira de dualidades. De um lado, herdou de Makunaíma uma afinidade extraordinária por magias de metamorfose e confusão mental; do outro, a madeira lhe concedeu uma resistência incomum, impedindo que seu espírito inquieto a consumisse por completo.
Nunca havia criado uma varinha cuja aparência revelasse tão claramente sua essência. Cada trinca conta a história de um conflito que jamais será resolvido — o impossível tentando romper o permanente, a liberdade confrontando a estabilidade.
