História e Origem
Hoje concluí uma criação que desafia tudo o que aprendi sobre varinhas mágicas. Dei-lhe o nome de Tesá, e, pela primeira vez em muitos anos de ofício, sinto que não fui apenas eu quem moldou uma varinha… ela também começou a moldar seu futuro mestre antes mesmo de encontrá-lo.
Os ingredientes vieram do Amazonas, onde a magia parece correr junto aos rios. Para seu corpo, escolhi o cipó-mariri, planta sagrada utilizada há gerações em rituais de expansão da consciência. Seus caules guardam uma magia incomum, capaz de ampliar os sentidos e abrir a mente para aquilo que normalmente permanece escondido entre as brumas do tempo. Enquanto o entalhava, tive a estranha sensação de que meus próprios pensamentos pareciam mais claros… e, ao mesmo tempo, mais distantes.
O núcleo veio de uma criatura cuja beleza já levou incontáveis homens à perdição: um fio de cabelo da Yara.
Obtê-lo exigiu muito mais cautela do que coragem. Seu canto não prende apenas os ouvidos; ele envolve a mente, desperta desejos esquecidos e faz qualquer viajante acreditar que encontrou aquilo que mais buscava na vida. Poucos conseguem se aproximar dela sem sucumbir ao encanto, e menos ainda retornam para contar a história. Quando finalmente consegui aquele único fio dourado, compreendi por que sua magia é tão cobiçada.
No instante em que o núcleo encontrou o mariri, a varinha reagiu como nenhuma outra havia reagido antes… Ela se moveu… Não por um reflexo da madeira, nem pela expansão do núcleo, mas por vontade própria.
A estrutura começou a se retrair lentamente, enrolando-se sobre meu pulso como uma serpente adormecida. Permanecia ali, imóvel, até que eu estendesse a mão para conjurar. Então, num movimento fluido, ela deslizava sozinha para a minha palma, assumindo novamente sua forma completa.
Nunca havia criado uma varinha capaz de alternar entre um estado desperto e um estado dormente. Percebi então que a Tesá não deseja ficar separada de seu mestre. Ela não repousa em estantes nem aceita permanecer guardada em caixas. Prefere acompanhar quem a empunha como um discreto bracelete vivo, aguardando pacientemente o momento de voltar a despertar.
Essa proximidade constante, porém, cobra um preço…. Passei apenas alguns dias usando-a durante os testes e já comecei a notar mudanças curiosas. Em alguns momentos, meus pensamentos pareciam vagar para lugares que ainda não existiam. Por um breve instante, enxergava acontecimentos futuros com absoluta clareza… apenas para perdê-los no segundo seguinte, como lembranças de um sonho ao despertar.
É como viver permanentemente entre duas realidades! Suspeito que, com os anos, seu mestre passe a oscilar entre presente e futuro com cada vez mais frequência. Talvez isso explique por que a Tesá demonstra uma afinidade tão extraordinária por magias de clarividência, mas também por encantamentos de controle. Afinal, poucos conseguem manipular melhor uma situação do que alguém que já vislumbrou suas consequências.
Com seus 33 centímetros e natureza extremamente flexível, a Tesá não impõe sua vontade ao bruxo. Pelo contrário: ela se adapta completamente ao seu corpo… até tornar difícil distinguir onde termina um e começa a outra.
